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domingo, 20 de setembro de 2015

Saudade de Minha Terra (1966)

Saudade de Minha Terra

(Composição: Belmonte e Goiá / Interpretes: Belmonte & Amarai)




Este texto começa com uma correção no subtítulo do texto: Composição somente de Goiá.

Goiá era uma pessoa muito humilde e iniciante no show business, com o objetivo de ter suas músicas gravadas ou veiculadas, negociou participação em suas composições com interpretes ou radialistas e Saudade de Minha Terra não foi uma exceção.

Mas antes de falarmos da música, vamos conhecer um pouco sobre a história deste compositor que melhor do que ninguém, soube expressar o sentimento de muitos brasileiros, que deixaram sua terra natal em busca de uma vida melhor na cidade grande.

Goiá
Goiá é o apelido de Gerson Coutinho da Silva, Nascido em 1935 em Coromandel-MG (cidade que fica a oeste do estado de Minas Gerais e a cerca de 500km da capital Belo Horizonte). Estudou música com o maestro José Ferreira e sempre gostou de poesias e trovas. Aos 18 anos, mudou-se para Goiânia (capital do estado de Goiás e a cerca de 400km de Coromandel-MG) na companhia do pai e com o sonho de fazer música sertaneja.

No tempo que viveu em Goiânia, participou do Trio Amizade (formado pelos amigos Zé Micuim, Goiá e Goiazinho), participou de programas de rádio, realizou pequenos shows em circos e cineteatros, além de ter gravado dois discos (com pouca repercussão e investimento dos próprios artistas).

Em 1956, depois de viver dois anos em Goiânia, Goiá se muda para São Paulo em busca do sucesso, isto porque a cidade abrigava o principal mercado consumidor e a maior estrutura de produção e difusão do gênero sertanejo. Mas o que pesou em sua decisão foi a de que Ilda, a namorada dos tempos de Coromandel-MG, vivia com a família na cidade.

Neste período, foram os dois irmãos de Ilda, Biá e Biazinho que abriram “portas” para Goiá, pois já faziam parte do meio artístico sertanejo.

Biazinho fazia shows e participava de programas de rádio como integrante da dupla Gauchito e Biazinho, enquanto Biá, cantor e compositor, formava dupla com o Palmeira (Diretor artístico da gravadora RCA Victor/Chanteclair), que gravariam neste mesmo ano um dos grandes sucessos da dupla, a música Boneca Cobiçada (leia esta grande história, clicando aqui). 

Mas a vida artística na época não era tão rentável como a de hoje e Goiá, começou a trabalhar na nova cidade, fazendo participações em programas de rádio, integrando grupos musicais e nas horas vagas escrevendo músicas.

Ficou assim durante algum tempo, casou-se com Ilda e sentindo a dificuldade de se manter somente com os rendimentos do meio artístico, arrumou um emprego no Banco de Crédito Nacional (BCN) no setor de cadastros, para complementar a renda.

Vivendo em São Paulo e convivendo com diversos gêneros musicais, Goiá decidiu mudar o seu estilo de composição adicionando um pouco de sofisticação, sem erros de concordância, sem exagero de sentimentos, mais naturalidade e principalmente sem o jeito de falar “errado” as palavras, comumente utilizada em músicas caipiras.

Em meados dos anos sessenta, o governo militar fazia uma campanha excessivamente otimista sobre as oportunidades nos grandes centros e inspirados por essa propaganda, milhares de famílias deixaram a vida no campo em busca de uma condição melhor. A informação não era totalmente incorreta, havia as tais “oportunidades”, mas não para todos, o que causou um sentimento de frustração para aqueles que aceitaram o desafio.

Esse período na história foi chamado de êxodo rural e refletiu diretamente nos rumos da música sertaneja, porque inspirou diversos compositores da época a escrever músicas sobre o tema.

Quem conseguiu melhor traduzir este sentimento foi Goiá. Ele era muito apegado às suas raízes e lembranças de infância, tinha em sua cidade Natal Coromandel-MG, seu porto seguro e na contramão do que dizia João Gilberto na música “Chega de Saudade” (composição de Tom Jobim e Vinicius de Morais, gravado em 1958), Goiá deixava claro que a vida na cidade grande não o fazia feliz.

Foi tomado deste sentimento que Goiá compôs uma das mais belas canções, que viria a se tornar um dos hinos da música sertaneja, a música: Saudade de Minha Terra.

A ideia para a letra da música surgiu quando caminhava pelas ruas do centro da capital paulista. Observava os enormes prédios e só pensava em uma coisa, voltar para casa.

A letra da música é quase uma autobiografia, pois fala de situações vividas pelo autor, cita lugares de sua cidade natal e principalmente declara seu amor e preocupação pela mãe. No verso “Tô aqui cantando, de longe escutando Alguém está chorando, com rádio ligado”, ele está falando dela, que sempre chorava quando o ouvia cantando no rádio.

A história de Goiá estava prestes a mudar, mas não só a dele. A vida do compositor estava prestes a cruzar com a de uma dupla sertaneja, que havia se formado a pouco tempo e que teria sua competência colocada à prova.

Em 1965, a gravadora RCA Victor (atual Sony Music), contratava como Diretor Artístico o músico Waldemar de Franchesi, o Nenete. Grande músico e compositor, que possui em seu currículo a gravação do clássico sertanejo Menino da Porteira (composição de Teddy Vieira e Luizinho), quando fazia dupla com Luizinho, numa das muitas formações da dupla Luizinho & Limeira.

Waldemar de Franchesi - o Nenete
Nenete, grande amigo de Belmonte e Amarai, fez contato com a dupla, propondo um contrato de gravação. Segundo relato de Amarai, naquela época os artistas passavam por um “teste”, que consistia na gravação de três discos. Se não fizesse sucesso, o acordo era desfeito. Os artistas não ganhavam muito com a venda, em geral o que ficava para eles era cerca de 5% do total vendido e nem sempre as gravadoras eram precisas em informar os dados aos artistas. O que interessava para eles era a divulgação, que os permitia tocar nas rádios e consequentemente vender shows.

A dupla recém-formada (em 1964) se conheceu no “Café dos Artistas” área com inúmeros bares que ia do largo Paissandu, passando por toda a avenida São João e terminava na esquina com a Ipiranga. Foi nesta época que conheceram Goiá, boêmio, também frequentava a região.

Tocavam principalmente em churrascarias, tendo em seu repertório além da música sertaneja, boleros e tangos. Eram considerados modernos para a época, pois incluíam em suas apresentações, harpas, trompetes e bongôs além do violão e da viola.

Capa do Disco Saudade de Minha Terra (1966)

Já no primeiro disco veio o sucesso. A dupla grava em 1966 disco com a música Saudade de Minha Terra (de Goiá), que vende em todo o Brasil, cerca de 1,4 milhões de cópia e transforma Belmonte & Amarai no novo sucesso do país, que perdurou até 1972, quando Belmonte morreu, vítima de um acidente automobilístico.

Goiá fez composições para inúmeras duplas sertanejas, entre elas Pedro Bento & Zé da Estrada, Liu & Léu, Irmãs Galvão, Zilo e Zalo, entre outros. Houve também inúmeras regravações de sua obra, nas vozes de artistas como Milionário & José Rico e Chitãozinho & Xororó.

Como não há registro oficial, estima-se que Goiá teria escrito cerca de 800 músicas, porém não fez fortuna, porque além de distribuir créditos em sua obra, a composição não era valorizada.

Goiá faleceu aos 46 anos, vítima de complicações da diabetes e de cirrose.


Fontes:

  • Livro: Negociações de um Sedutor – Trajetória e obra do compositor Goiá no meio artístico sertanejo (1954-1981) – Diogo de Souza – 2009 - Universidade Federal de Uberlândia.
  • Blog: Universo Sertanejo – André Piunti – Mar/2011 - http://universosertanejo.blogosfera.uol.com.br/2011/03/27/saudade-da-minha-terra/
  • Programa Viola Minha Viola – Participação de Belmonte e Amarai – Set/2014
  • Terra da Padroeira – Quadro Rancho da Saudade com Belmonte & Amarai – Mar/2013
  • Programa Viola Minha Viola – Homenagem a Goiá – 1981.
  • Documentário: Goiá um grande compositor – Jan/2013 - https://www.youtube.com/watch?v=UNSQpY9MgfA